sábado, 10 de novembro de 2007

— MUITOS, MAS NEM TODOS!

Terríveis foram em Espanha os anos de 1934 e os de 36 a 39 do século passado. O ódio aos Católicos (Os Protestantes foram poupados!) foi tão extenso e tão intenso que certo Ministro do Governo escreveu no seu relatório: «A Igreja acabou hoje».
E de facto parecia.
Queimaram-se milhares de igrejas, inutilizaram-se outras tantas. Mataram-se quase 4000 sacerdotes, cerca de 2500 religiosos, 300 religiosas e 11 bispos. Entre os leigos contabilizam-se dezenas de milhares de mortos. Trazer uma medalha religiosa era passaporte suficiente para a morte.
Houve dioceses que num só ano perderam 90% do clero. Vários sacerdotes morreram como Cristo: flagelados, coroados de espinhos, insultados e crucificados. Os perseguidores tinham bem aprendida a catequese! E eles também, pois que morreram a perdoar!
Certa mãe dum jesuita foi afogada porque cometera o crime de ser mãe... dum jesuita! Mas primeiro tragou o crucifixo que trazia.
A certa altura, na frente de combate faltou a gasolina: havia sido requisitada para a queima de católicos, obras de arte antigas e as bibliotecas da Igreja!
Ainda hoje se sofre! Ainda hoje não sararam as feridas. Ainda hoje não secou o sangue mártir no solo espanhol, nem dos ares se esfumou o cheiro do ódio à religião.
Deve-se em grande parte ao sereno arrojo do Papa João Paulo II a prevalência da memória dos mártires católicos espanhóis do séc. XX.
A 22 de Março de 1986 aprovou o Decreto de beatificação de três Carmelitas mártires de Guadalajara. No passado domingo, 28 de Outubro, em Roma, foram beatificados mais 498 mártires. 32 era Carmelitas Descalços. Eram muitos, mas não foram todos!

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Conta S. Teresa no Livro da Vida (40,13) que um santo (Talvez S. Alberto da Sicília) lhe disse que na sua Ordem «haveria muitos mártires». Bem o adivinharam ambos...
O primeiro mártir Carmelita Descalço é português de Paredes de Coura a chama-se B. Redento da Cruz. Junto a ele vem o B. Dionísio da Natividade. Foram martirizados pela firmeza da sua fé, nos arredores da cidade de Achem, Ilha da Sumatra, na Índia, no dia 29 de Novembro de 1638.
Seguiram-se-lhes outros muitos na França, Holanda, Alemanha, Polónia e Espanha. No dia 28 de Outubro passado foram declarados Beatos mais trinta e dois: 1 de Oviedo, 14 de Barcelona mais um seminarista, 16 de Toledo. E ainda 4 Irmãs Carmelitas Missionárias e 1 Carmelita da Caridade.
Em datas anteriores tinham já sido beatificadas outras nossas irmãs: três Carmelitas Descalças de Guadalajara e a Madre Maria Sacrário de São Luis Gonzaga.

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Em comunhão com toda a Ordem do Carmo rejubilámos com a beatificação de mais 32 irmãos nossos, no passado domingo 28 de Outubro, em cerimónia presidida pelo cardeal José Saraiva Martins. Os nossos estavam entre os 498 novos beatos, a maior beatificação realizada pela Igreja numa só cerimónia.
Vozes vários se ergueram contra; e outras a favor. A Igreja espanhola do século XX foi perseguida e por isso se viu coroada com muitos mártires. Até à data foram já elevados aos altares 966, 11 deles reconhecidos como santos.
São muitos, mas ainda não são todos!
A Igreja espanhola recordou que só há mártires quando há perseguição. Assim foi. Na homilia da celebração o Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos declarou: «Os mártires nunca são património exclusivo duma diocese ou duma nação: pertencem ao mundo inteiro e à Igreja universal». E assim é, de facto. Entre os agora beatificados estavam também dois franceses, dois mexicanos e um cubano.
Porque cremos que as contas não nos falham, ficou a faltar um Carmelita português, natural de Semide. A sua vocação era de Carmelita. Depois de ordenado trabalhou no Seminário e Sé de Coimbra, no Seminário e Sé de Évora. O seu amor à Ordem fez dele um coluna (ignorada) do edifício da restauração do Carmo em Portugal. Regressou a tempo ao seu convento de Toledo donde foi expulso, perseguido e levado para o martírio. Não aparece jamais nomeada a sua pertença, conventualidade e martírio. Nós sabemo-lo e acreditamo-lo. Por isso dizemos: Muitos, mas não todos!

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«Perdoem e abençoem e amem a todos, como eu vos amo, perdoo e abençoo.»
(Da Carta de despedida do B. Tirso de Jesus Maria à sua família.)


(Chama 646, 11 de Novembro de 2007)

sábado, 3 de novembro de 2007

— Quem és tu, Zé Pedro?

Em tempos de aparente esmorecimento é consolador e reconfortante testemunhar certos gestos pequeninos e delicados que sabem tanto melhor e tanto mais alegram e animam quanto mais têm de inesperado. Ainda há calor e surpresa. O mais insólito mas não o último passou-se com o Zé Pedro, que eu jamais vira. O encontro com ele (e a avó) foi tão inesperadamente delicado e tocante que hoje resolvi contá-lo, na Chama deste Domingo. Também é certo que uma vez mais nos aprestamos a pedir a sua esmola para as obras do adro e da fachada da Igreja. Mas a coisa, aquele encontro, foi assim tão... tão... (Tão divina?) que eu apeteceu-me perguntar: — Quem és tu, Zé Pedro?
E ainda não sei responder se naquele dia falei com um Anjo ou só com um menino.

Conheci o Zé Pedro num dia em que a avó o trouxe. São vizinhos do Carmo. Ambos poderiam figurar no livro Filhos do Carmo. Mas não, não estão lá. Fica para a próxima, se Deus quiser.
Um dia a avó trouxe-me o mealheiro do neto. Contou-me que lhe contava coisas desta casa, da Igreja, da casa de Jesus, de Nossa Senhora, do convento novo, de como isto foi ficando bonito, que nem sempre assim fora. O neto, claro, não sabe. Sabe só o que vê, e ainda assim vê pouco. Ele é tão pouquenino. Mas nestas coisas não importa o que se vê, mas o como se ama!
Quando abri o mealheiro — na minha terra dizem migalheiro — tirei dele quase 50,00€, contando algumas moedas de escudo.
(Era antigo, portanto).
Um dia a avó trouxe o neto. Oh, como lhe agradeci! Como me encantei! O miúdo parecia que sabia ao que vinha. Espevitado, não se intimidou, nem por ter de falar com os grandes, nem por estar num convento. Enfim, falamos tu a tu, como se fôssemos parceiros de há longos anos.
Tratou-me por tu. Conversámos. (Eu tive de fazer quase — não muito — de miúdo.) E depois despediu-se. Deveria haver alguma senha entre eles, pois foi simultâneo o desejo de partir. Mas não, não saiu sem me apertar a mão e me agradecer três vezes por me ter conhecido.
(Ora, Zé Pedro, bute lá! Eu não sou grande peça!)
Foram-se. Hoje garanto-me, para me convencer: se fosse de chorar, teria chorado naquela hora. O miúdo comoveu-me. Não me conhece de lado algum e foi genuíno no trato, nos gestos, no estar, no falar, e, claro, nas distracções.
— Prazer em conhecê-lo, sabe? despedia-se. E eu ainda oiço essa música nos meus ouvidos.
Obrigado, Zé Pedro! Obrigado, avó! São coisas assim de simples que ajudam a refrescar o meu barro resseco! Sim, obrigado Zé Pedro, isto é por ti. É mesmo por ti! Tudo isto é por ti. Por ti e por todos os que tu naqueles minutos representas-te diante de mim. Esses olhitos que me remiraram perante o sorriso da tua avó, quando, como homens nos apertámos as mãos, fazem-me lembrar outros meninos. Muito outros meninos e meninas.
Sim. Isto é por ti, Zé Pedro. Por ti e por eles. Pela Ana, pela Francisca, o Marcus, o Miguel, o Tiago...
Sabes, saberás, tu, Zé Pedro, que tudo isto só tem sentido porque é um legado que me foi entregue e eu recebi — eu e muitos outros comigo e antes de mim! — pelo que será um prazer entregar-te um dia a Igreja do Carmo. Sim, é verdade: um dia o Carmo será para ti e para a Ana que se debruça sobre o Altar quando celebro a Eucaristia, e para o Tomás que quer mas não é capaz de vir apertar-me a mão no Momento da Paz, e para o Alberto que não consegue ficar toda a Missa acordado, e para a Joana que já canta no Voces Carmeli tão bem quanto a mãe, e para o David que ao colo do pai é tão simpático quanto tu, e para a Alice a quem impus o Escapulário enquanto dormia ao colo do pai, e para a Elisabete que fez aqui a Primeira Comunhão antes de ir para Inglaterra e que prometeu e cumpriu vir dar-me um beijinho sempre que viesse a Aveiro, e para a Nininha que há muito tempo não a vejo por aqui com a sua saíta de fada. E para... E para...
É para ti, Zé Pedro. Tudo isto não faria sentido se tudo isto não fosse já herança tua, tua e de todos eles. Esses e outros que, entretanto, hão-de vir.
Sim, como vês, enquanto não chegar a tua vez, cuidaremos bem da igreja e do convento que muito amamos. Já viste como os velhinhos — a Dona Olga e outros — sobem mais desafogadamente as rampas? Sabes que há mais velhinhos a vir à igreja, porque já não se cansam tanto? Nem tropeçam tanto? Sabias isso? Pois, é verdade.
Cresce, Zé Pedro! Cresce, depressa, Zé Pedro. Que isto dá muito trabalho e eu estou ansioso por entregar-te a nossa Igreja do Carmo. Entretanto, como te disse, cuidaremos dela e defendê-la-emos como a menina dos olhos. Queremo-la para ti!
Aparece por aí, mesmo sem migalheiro. Porque para mim foi uma imensa alegria conhecer-te. Desta será a minha vez. Quero dizer-te três vezes que foi uma imensa alegria conhecer‑te. (Eu que não sei nada de ti, a não ser que gostas de aqui vir voando no sorriso da tua avó.)
(Chama 645, 04 de Novembro de 2007)

sábado, 27 de outubro de 2007

Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno!

Nós não podemos esquecer os mortos porque são eles quem verdadeiramente vive. Nós, fazemos memória dos mortos porque com eles estabelecemos uma comunhão única só possível pelo mistério da Graça e só vivenciável no amor que Deus nos tem, porque Ele é Deus dos vivos e dos mortos.
A celebração da Missa pelos defunto não é moda de agora. (Infeliz) Moda de agora é ignorar o valor da missa pelos defuntos. Tal desconhecimento deve-se à vontade de ignorar o acontecimento sempre trágico e traumático que é a morte. Perante ela nasce mais depressa a revolta (— Porque é que Deus não fez nada?) e a incompreensão (— Se alguém devia morrer não era ele!), que a serenidade e a esperança no Senhor.
É fé da Igreja que a Missa se oferece pelo perdão dos pecados (e outras necessidades) dos fiéis vivos, mas também pelos defuntos.
Em 156, um ano depois da morte de São Policarpo, os cristãos de Esmirna celebraram uma missa em sua memória. Em 210, o teólogo Tertuliano ensina este piedoso dever para com todos os defuntos. No séc. IV dá-se o aparecimento da Missa de Séptimo e Trigésimo dias, além da do dia. No séc. VI os sacerdotes começaram a rezar missas de defuntos durante uma série de dias, mesmo sem a participação de fiéis. No séc. X o Abade Odilão de Cluny, começou a celebrar a «Comemoração dos Fiéis Defuntos» no dia seguinte à Solenidade de Todos os Santos, como ainda hoje se faz.
Os séculos seguintes testemunharam o incremento e multiplicação destas missas.
A memória dos defuntos é hoje um dos centros psicológicos da Missa, e é consensual e até necessário mencionar publicamente os seus nomes. Na verdade, a morte possibilita que nos abramos completamente Àquele que nos fez viver na terra; e tanto assim é que quer os vivos quer os mortos comungam o mesmo mistério da Graça: a incorporação em Cristo, no Corpo Místico de Cristo! É por isso que, vivos e mortos, verdadeiramente nos encontramos na Eucaristia.
Exceptuando a memória terna que deles fazemos na oração da Igreja, é bem sabido que a nossa época se esforça por esquecer publicamente a agonia e a morte. É assunto por demais desagradável e inibidor para os de hoje. Será porque nos recorda os nossos limites? Será porque um dia nos tocará? Será porque lhes disseram que seriam quase deuses intocáveis e, afinal, pereceremos como os outros? Será que a morte para além da separação parece uma derrota? Será porque na morte não vimos um sinal da presença do amor de Deus? Será por isto, será por aquilo ou por tudo?
É porém verdade que aquilo que nos afasta da comunhão espiritual dos mortos nos afasta também da poderosa força da mensagem cristã da ressurreição. Quem perde uma perde a outra também.
A fé cristã exprime-se na comunhão do crente com Deus, na comunhão dos crentes entre si e também na comunhão dos vivos com os mortos. Entre os fiéis vivos e os fiéis defuntos existe uma solidariedade de que ambos beneficiam.
A comunhão com Deus — como Deus dos vivos! — é tanto mais expressiva quanto mais os mortos significam para nós, através da comunhão dos santos que professamos quando rezamos o Credo.
Por sua vez, quando rezamos:

Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno
entre os esplendores da luz perpétua;
que descansem em paz. Amen,


estamos a rezar aquela mesma palavra de amor, que os nossos irmãos mortos pronunciam sobre nós desde a plenitude de Deus, e que é:



Depois das lutas da vida
dai, Senhor, a estes irmãos
[isto é, a nós que ainda vivemos na Terra]
a quem, como nunca, amamos no Vosso amor,
o descanso eterno e que a Vossa luz
igualmente brilhe sobre eles.

Essa é a comunhão plena dos santos, aquela que ansiamos, que professamos e que já vivemos, embora desde a perspectiva da fé, não do amor pleno e definitivo.
A Eucaristia é memorial da Paixão e Morte de Jesus. Essa é a razão pela qual ela é o lugar onde melhor podemos recordar os mortos. Ali recordamos a morte do Rei da vida e professamos a sua ressurreição, por isso a recordação da morte dos nossos defuntos é também a da sua ressurreição!
Não é humano não fazer memória dos mortos.
Celebremos, pois, a Eucaristia com a certeza de que nela se reactualiza a Nova Aliança. De que por ela nos aproximamos confiadamente de Deus. De que nela fundamentamos a nossa existência, lhe conferimos densidade e renovamos a comunhão com Deus e os irmãos, isto é, retomamos o projecto inicial de amor no qual Deus nos criou.
(Chama 644, 28 de Outubro de 2007)

sábado, 20 de outubro de 2007

Testemunhos na primeira pessoa (IV)

Ir para missão fez-me sair da acomodação a que estava habituado. Partilhei novas experiências pessoais com outro povo e procurei cumprir a tarefa que Deus me
atribuiu: mostrar um caminho diferente de viver a fé que recebi no baptismo.
O coração falou mais alto e fui ajudar os outros, dar e repartir o que tinha de melhor. Agora percebo os testemunhos dos que já viveram uma experiência de missão e que dizem que quando fazemos um balanço do que se fez, nos apercebemos de que se recebeu muito mais do que se deu. Sente-se algo que é inexplicável por palavras…
Nuno Óscar Vilela Fereira
Leigo Missionário Carmelita em Pemba, Moçambique
(Chama 643, 21 de Outubro de 2007)

Testemunhos na primeira pessoa (III)

Estive na missão católica de Safim, na Guiné. Diziam-nos que fica a 15 km de Bissau, mas quando íamos à capital pareciam mais. As Irmãs de São José de Cluny que nos acolherem são de origem angolana.
Fiquei impressionada por ver mamãs e bébés desnutridos... Ali muitas pessoas fazem apenas uma refeição por dia.
Quando estive doente todos se mostraram preocupados comigo. Quando passávamos pela rua, os meninos pediam-nos amêndoa (doces, rebuçados).
Mas no meio do caos da pobreza e da miséria também havia generosidade: quando comiam chamavam-nos para comer também!
É muito importante ser capaz de estar, viver e de amar os outros, contribuindo um pouco para a alegria, para um mundo melhor.
Se toda a gente contribuísse...
Aprendi a dar mais valor à minha própria vida, a ter mais atenção com certas coisas que antes me passavam um pouco ao lado.
Gisela Ferreira
Voluntária missionária de Esgueira
(Chama 643, 21 de Outubro de 2007)

Testemunhos na primeira pessoa (II)

Sou missionário numa Igreja fundada por S. Francisco Xavier, no séc. XVI. Foi perseguida e humilhada. Foi publicamente proscrita logo nos seus começos e banida até à entrada dos Padres das Missões de Paris, que passados mais de 2 séculos encontraram cristãos que rezavam às escondidas diante de imagens, que do lado de fora eram figura de Buda, mas do de dentro eram de Cristo ou Maria. Sem sacerdotes viveram este tempo todo, não se esquecendo da Doutrina cristã, do Credo, da Ave Maria ou do Pai Nosso.
Pe. Domingos Areais
missionário português em Osaka, Japão
(Chama 643, 21 de Outubro de 2007)

Testemunhos na primeira pessoa (I)

Era dia de baptismos. Toda a comunidade estava reunida. Tinha chegado o momento. Eram cinco crianças. Uma delas, de 4 anos, prendeu-me a atenção: Estava sempre sorrir! Quando fiz o sinal da cruz na sua testa, ela sorriu, e eu correspondi. Quando a ungi com o óleo dos catecúmenos, fez aquele sorriso de quem está feliz e em paz. Quando chegou o momento de derramar a água na cabeça, chamei pelo seu nome, e perguntei-lhe: “Ketelen você quer ser baptizada?” Ela respondeu com uma convicção profunda: “Sim”. Toda a assembleia ficou sorrindo com a resposta pronta. Derramei a água em sua cabeça. E às minhas palavras: “Eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, enquanto pais e padrinhos ficaram quase calados, ela respondeu com alegria e força: “AMEN!”. Todos ficamos admirados com a sua convicção. É algo que nós, baptizados, precisamos: alegria e força de fé.
Pe. Hugo Ventura
missionário português na Amazónia, Brasil
(Chama 643, 21 de Outubro de 2007)

Todas as Igrejas para o Mundo inteiro!

O mês de Outubro entra nas comunidades cristãs como um imenso apelo para a missão. Nas Igrejas locais e nas Comunidades Religiosas, como a nossa, palpita esta ânsia, sente-se este apelo. Vamos ajudar os missionários, vamos rezar pelos missionários. Que eles bem precisam: Nos últimos 25 anos morreram quase vinte missionários portugueses em emboscadas na estrada, em ataques às missões, no meio de raptos e sequestros; foram crimes pensados para eliminar quem defendia a justiça e a verdade. Porque amavam morreram; perderam para salvar.
A Igreja de Jesus Cristo está em Aveiro, Paris, Angola, Roma, Tóquio ou Corinto. Não interessa o lugar não interessa o nome, interessa que Jesus está onde está um cristão, e todos, pela moção do Espírito Santo, estamos em comunhão com Cristo.
Caminhamos todos embarcados na barca de Pedro, que é a de Cristo. Entre as diferentes Igrejas não há distância, mas comunhão; não há separação, mas união e fraternidade. Em cada comunidade ou em cada porçãozinha do Povo de Deus, late o coração da Igreja Universal, de toda a Igreja. As dores e debilidades de uns são as de todos, as alegrias e as riquezas igualmente.
As Igrejas têm a sua cor e a sua tradição, as suas sensibilidades, condições, disposições, sonhos, esperanças e calor humano próprios. Porém as diferenças não deixam ninguém à deriva, ninguém separado, ninguém abandonado.
Somos todos responsáveis por todos.
A mensagem do Papa para este dia responsabiliza‑nos mutuamente: Todas as Igrejas para o mundo inteiro, escreveu o Papa. E disse mais: «Demos graças ao Senhor pelos frutos abundantes obtidos por esta cooperação missionária em África e noutras regiões da Terra. Multidões de sacerdotes, depois de terem deixado as comunidades de origem, dedicaram as suas energias apostólicas ao serviço de comunidades acabadas de surgir, em zonas de pobreza e em vias de desenvolvimento. Entre eles encontram-se não poucos mártires que, ao testemunho da palavra e à dedicação apostólica, uniram o sacrifício da vida».
O envio missionário de Cristo é para ser ouvido por todos: «Ide por todo o mundo!». Ninguém deve sentir-se de fora nesta tarefa de anunciar a alegria do Evangelho aos quatro cantos da Terra. Todos, bispos e sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos, jovens e famílias: «Cada comunidade cristã nasce missionária, e é com base na coragem de evangelizar que se mede o amor dos crentes para com o Senhor».
A todos cabe partilhar a preocupação pela difusão do Evangelho; cada um deve sentir-se protagonista da missão da Igreja. Deste Dia Missionário Mundial espera o Papa que se favoreça a cooperação entre as Igrejas e a preparação de novos missionários. Porém, conclui: «Não esqueçamos que o primeiro e prioritário contributo que somos chamados a oferecer à acção missionária da Igreja é a oração».
(Chama 643, 21 de Outubro de 2007)

sábado, 13 de outubro de 2007

Pelos labirintos do mundo

A marca do início é sempre algo feliz e esperançoso. Iniciar um novo Ano Pastoral deve despertar-nos para a novidade da Presença Divina, que vem aos nossos corações e à nossa comunidade de forma sempre nova e cheia de graça. Da minha leitura do próximo Ano Pastoral deixo-vos cinco marcas especiais:

Primeira marca: O labirinto
Terminaram as obras. Estamos cansados e de arcas vazias, mas não abatidos nem vencidos. A fachada da igreja ficou limpa e digna; o Adro parece maior, a sobriedade torna-o mais belo. Como tudo o resto.
À entrada do adro inscrevemos um desenho dum labirinto. Pode parecer estranho que ao virmos à igreja nos receba um símbolo tão inesperado. Ele apenas quer dizer que os passos que passam pelos caminhos do mundo, se encontram todos ali. Quanto custa às vezes, vir à igreja rezar em comunidade! Quantas vezes a nossa vida pessoal e familiar é um emaranhado de confusões e de estorvos!
O labirinto quer recordar-nos que tudo é mais fácil com Deus: basta confiar! Ele recorda‑nos que os caminhos duros da vida, se levados com Deus são auto-estradas largas e fáceis; e que os caminhos largos e sem Deus são abismos escuros, são precipícios terríveis onde nos espera a derrota e a morte.
O labirinto recorda-nos o que nos ensina Santa Teresa: Não chega fazer a viagem à igreja; falta depois fazer a viagem ao interior da nossa alma — tantas vezes mais confuso que a vida exterior! É necessário que tu caminhes até ao mais profundo centro da tua alma, aonde só se chega depois de vencidas seis moradas. Aí, na sétima, no centro mais profundo, unir-te-ás intimamente ao teu Senhor.
Vem, vinde ao Carmo. Pisai aquele labirinto. Recordai que à canseira física sucedem os trabalhos do espírito. Vinde e reconciliai-vos. Vinde e alimentai-vos do Pão da Vida para não desistirdes nem fraquejardes na peregrinação.

Segunda marca: A atenção aos pobres
O novo Ano Pastoral pede-nos que prestemos atenção aos pobres. O título oficial é O serviço aos pobres é o sinal visível da verdadeira Igreja de Jesus Cristo. A Igreja foi sempre mais verdadeira quanto mais olhou o rosto dos pobres e nele reconheceu o rosto de Jesus Cristo. Perguntei-me o que poderia fazer a nossa Comunidade do Carmo pelos pobres. Será preciso gastar muito dinheiro? Será preciso privar-nos dos nossos bens? E a resposta surgiu-me em dois pontos. Assim:
1. A partilha de bens é necessária e ajuda o pobre. Mas não é suficiente se, como pede o Papa, não «fizermos um exigente exame de consciência» à nossa vida e aos nossos haveres. O exame nos dirá que é possível valorizar a gratuidade; que podemos fazer muito bem sem recorrermos aos subsídios do Estado; que podemos valorizar o mais: é sempre possível fazer mais, fazer melhor, fazer com o coração, fazer com o sorriso, aquele sorriso que nasce da oração. É sempre possível valorizar o mais e viver com menos! Será que já o tentámos?
2. Existem uns pobres que estão impossibilitados de arrastar-se até às portas das igrejas, às esquinas das ruas ou aos mercados. São os pobres de relação, aqueles que ninguém visita, a que ninguém oferece o toque da mão.
São Policarpo dizia: «Quando puderdes fazer o bem não adieis». E eu dir-vos-ei: Quando puderdes visitar alguém que seja tão pobre que não consiga atravessar-se à frente do vosso olhar, visitai! Visitai, porque essa caridade é da melhor.
No breviário do papa João Paulo I — o Papa do sorriso! — foi encontrada uma oração doce como uma súplica de criança, escrita pelo seu punho. Reza assim a sua oração: «Peço-te uma graça: gostava que Tu estivesses a meu lado na hora em que eu fechar os olhos para a vida terrena. Gostava que apertasses a minha mão na tua, como faz a mãe com o seu filho pequeno, no momento do perigo. Obrigado, Senhor.»

A terceira marca: A celebração de Centenários
Por graça de Deus, neste novo Ano Pastoral é-nos renovada a alegria da celebração de novos centenários. Durante o Ano anterior celebramos uns, agora serão outros. Assim é porque somos uma família com muita história e de boa memória.
Uma comunidade é sempre alicerce dos que hão-de vir. Os que nos precederam, vivendo e amando o Carmo antes de nós, legaram-no-lo e são os nossos fundamentos. Nós caminhamos sobre a santidade dos nossos irmãos. É por isso que não me resigno a ter de celebrar mais centenários. Não me resigno; alegro-me e agradeço a Deus essa graça.
A 19 de Novembro completam-se os cem anos da morte de S. Rafael Kalinowski, restaurador do Carmo polaco (Vede a sua imagem à entrada; vede como é bonita aquela sua atitude de bênção sobre o mundo...); celebraremos o VIII centenário da nossa Regra, e o I do nascimento da Irmã Lúcia.
Hoje celebramo-los a eles, e nós?, e nós que somos fundamento do futuro, quando nos celebrarão a nós? Ou melhor dito: quem de nós estará disposto a sofrer e a amar tanto o Carmo, que venha a merecer ser recordado como uma pedra ou uma coluna que o construiu, o engrandeceu e o sustentou? Quem?

Quarta marca: Os Filhos do Carmo
Saiu hoje um livro que se chama Filhos do Carmo. São pequenas histórias de alguns filhos desta casa. Pode ser encontrado na Lojinha. Este livro é uma pequena estratégia para angariar fundos que paguem a Cruz Processional. Agradeço sentidamente a vossa filiação carmelitana, particularmente a dos biografados que favoreceram esta causa. Por favor: Levai-o! É uma ajuda que nos fazeis, e que ele nos estimule a sermos santos como os que lá estão.
Há dias, nós, os três frades, ponderávamos a compra de algo necessário. Mas logo parámos: não há dinheiro, concluímos. Até que um os frades exclamou: «Arre!, que o dinheiro está sempre a estorvar as coisas de Nosso Senhor!» Assim é, entre nós e entre vós. Porém, que só Deus seja sempre louvado nas nossas vidas. Só Deus, jamais o dinheiro!


Última marca: As contas das obras
Parece que só falo delas, e falo. Eu falo do que é meu dever falar. Direi o que já disse uma vez: Só fizemos o que devíamos ter feito! Fizemo-lo sem dar passo algum maior que a perna. Desde o início das obras do Adro que o Empreiteiro conhecia as nossas dificuldades, pois cuidamos em denunciá‑las com humildade. Pela estima que nos tem, aceitou trabalhar sabendo que as facturas poderiam tardar em ser pagas. As posteriores dificuldades que caíram sobre a sua empresa não as contava ele nem nós. Portanto, se muito falo das nossas dívidas é também por dever de solidariedade com quem aqui amassou o pão justo de cada dia!
Os peditórios mensais renderam: 537,50€, em Junho; 900,00€, em Julho; 565,00€, em Agosto; e 1.090,00€, em Setembro. O total não chega a 10% da penúltima factura que temos de pagar! E depois falta a última! Porém, a minha confiança mais firme é a de que nunca Deus faltou a quem por Ele trabalhou!
Aqui termino, confiando-vos que vivo e rezo confiado. Confio que tudo isto é para louvor de Nossa Senhora do Carmo e para honra da Santíssima Trindade. São Eles a quem mais amamos e servimos. Que eles nos abençoem e nos acompanhem nos labirintos deste novo Ano Pastoral.

Homilia da Eucaristia de abertura do novo Ano Pastoral
6 de Outubro de 2007
Frei João Costa, Prior

(Chama 642, 14 de Outubro de 2007)

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Muito obrigado!


Há cinco anos atrás, neste mesmo Sábado, no fim desta Eucaristia, informei-vos das obras que estariam para começar. Disse nessa altura, mais ou menos isto: «As telhas estão podres, os caibros estão a ruir, as paredes estão estragadas, chove dentro da Igreja, chove dentro do Convento, entra vento, frio e calor e os bichos convivem com os frades. Senhor Engenheiro David Leite não deixe cair esta igreja. Faça as obras que aqui falta fazer e depois faça também um Convento novo onde os frades possam viver.»
Claro que estava quase tudo preparado para começar. Aquelas palavras — como ele bem entendeu, e depois mo disse — só queriam dizer que as obras eram de todos: dos frades desta Comunidade e de todos os fiéis leigos Carmelitas. Isto é, de todos vós. Ele seria, enfim, o ponta de lança do compromisso da comunidade laical carmelitana de Aveiro. Foi isso que ele bem entendeu e fez.
Passados cinco anos, terminadas as obras que nos propusemos [Não é por faltarem cinco pedras, quatro marteladas e três pinceladas que eu vou dizer que elas não estão acabadas.] dizia, terminadas as obras que nos propusemos, cumpre-me a mim, Superior desta Comunidade, pôr a última pedra, ou como quem diz, a última palavra.

E esta palavra são duas: MUITO OBRIGADO!

Muito obrigado a Deus Nosso Senhor, que é sempre bom. Se todos concordarem comigo, todos juntos diremos que foi muito bom estar na re--construção da nossa Igreja do Carmo e do nosso Convento, porque o fogo que ardia no coração da nossa Santa Madre Teresa de Jesus não era outro que o de ver nascer casas onde Deus e Nossa Senhora fossem muito honrados, porque muito feridos e desonrados são em muitíssimas outras!

Muito obrigado a Nossa Senhora do Carmo, que é sempre Mãe e Irmã nossa. Foi por Ela. E foi para que Ela se sinta bem no nosso meio. Deu-nos uma casa nova onde nos sentimos bem, e nós demos-lhe uma igreja renovada, uma coroa, opas novas da sua Confraria, capas brancas da Fraternidade, uma nova cruz processional e também um barco! Afinal, ela é a Capitã das nossas vidas e trabalhos.

Muito obrigado à Equipa Técnica do senhor Arquitecto Francisco Simões que riscou e arriscou nestas obras. Nunca é fácil tocar num monumento com quase quatrocentos anos. E porque estamos no século XXI também não é tarefa cómoda erguer um convento. Hoje já não são muitos a saber o que é um convento. E são menos os que sabem riscá-los. Pelo bem que fez, muito obrigado ao senhor Arq. Francisco Simões.

Muito obrigado à Soianenses, na pessoa do senhor Agostinho Ferreira. Na Soianenses não vejo hoje só uma construtora civil; vejo amigos e até um complemento da nossa família do Carmo. Alegra-me saber que em tempos difíceis as suas famílias comeram do pão que aqui amassaram e nós abençoamos. E alegra-me muito que nem um operário aqui se tenha ferido! Nem um! [Se deram marteladas nos dedos foi só para lembrar que as segundas-feiras costumam ser dias difíceis!].

Muito obrigado a todos colaboradores e benfeitores. Uns perderam muito tempo com estas obras e outros perderam muitíssimo. Uns inquietaram--se muitos com as obras, mas outros perderam muitíssimo sono por causa delas. Só Deus sabe quem mais perdeu. Só Deus sabe quem mais ganhou. Só Deus sabe quem mais amou. Só Deus sabe qual a oferta que mais Lhe agradou.
Eu e a Comunidade estamos agradecidos. Simplesmente agradecidos.
As obras só puderam ser feitas com as benfeitorias que nos fizeram. Elas chegaram-nos de Aveiro e seus arredores; de Braga, de Viana e das gentes das outras Comunidades carmelitanas, como a de Avessadas [Que tem hoje aqui uma representação e me dão uma grande alegria por escutarem estas palavras!].

Ouvi muitos comprazimentos com as obras. E ouvi muitos conselhos. «Faça assim». «Não se esqueça daquilo». «Olhe bem por aquelas pedras». E ouvi e oiço também muitos elogios. As imperfeições — que as há! — ficam serenamente diluidas no muito bem que se fez. Quero, por isso, agradecer também aquilo que vós não calastes, o que nos aconselhastes, o que em nós confiastes.

Alguém me dizia ontem o provérbio: «Se queres desejar mal ao teu vizinho, deseja-lhe obras em casa». Sim. As nossas obras foram um mal necessário que nós suportamos com garbo, com brio, orgulho, sacrifício, ânimo, paciência, garra e gosto. Eu desejei-me este mal a mim mesmo. Embora talvez, talvez não soubesse que haveria tanto pó, ruído, desconforto, frio, vento, reuniões, decisões, dores de cabeça, susto e até lágrimas.

Mas valeu a pena, porque esta é obra de Deus. Deus andou aqui connosco: andou nos nossos trabalhos, no meio do pó e dos andaimes, nas reuniões, nos estiradores e computadores, nas orações e dores de cabeça. Que a sua bênção nunca nos abandone. Pois até agora nunca nos abandonou.
Agora que terminaram as obras, falta repetir o que Jesus ensinou a dizer aos servos que apenas cumprem o que lhes foi mandado: «Sou um servo inútil, só fiz o que devia ter feito» (Lc 17:10). E dizer estas, que são minhas: Sou um servo inútil, só fiz aquilo que me beneficia.
Agora que terminaram as obras, falta também recordar que há mais obras por fazer. Falta a boa obra que cada um tem de fazer da sua vida e da sua família. E faltam as obras no edifício do ex-Convento que nos foi devolvido. Serão feitas quando Deus quiser, quando Ele mandar. Porque é Ele quem manda. Nós só somos servos!

Mas convém aqui recordar hoje que dentro de seis anos, em 2013, se celebram os quatrocentos anos da fundação deste Convento do Carmo. Nessa data nem todos estaremos aqui, mas, desde já, todos poderemos ajudar a celebrar essa data feliz da história da nossa Comunidade do Carmo e da história da cidade de Aveiro.
O que fizermos há-de ser sempre por Deus e por Nossa Senhora do Carmo. Eles é que são os senhores. São Eles quem mandam. E já que mandam, que mandem. Que mandem! Porque há aqui quem obedeça bem e quem construa bem.
Por isso, rezamos:
Divino Menino Jesus de Praga - Abençoai-nos!
Nossa Senhora do Carmo - Rogai por nós!
S. Padre João da Cruz
S. Madre Teresa de Jesus
S. Teresinha do Menino Jesus
São Rafael de S. José Kalinowski
Bem-aventurado Redento da Cruz
Bem-aventurada Isabel da Trindade
Todos os Santos e Santas do Carmo,
Todos os Santos e Santas de Deus,
Viva a nossa Mãe do Céu!
Viva Nossa Senhora do Carmo!
Viva a Senhora do Carmo!


Homilia do Sábado da Procissão de Nossa Senhora do Carmo,
14 de Julho de 2007
Frei João Costa
(Chama 640, 22 de Julho de 2007)