quinta-feira, 24 de abril de 2008

365º aniversário da nossa Igreja

Cumpre-se hoje o 365º aniversário da Igreja de Nossa Senhora do Carmo de Aveiro. No livro CARMO DE AVEIRO, do Frei Silvino, páginas 46-47, regista-se assim o facto:
«Entretanto, terminaram-se as obras da formosa igreja do convento do Carmo de Aveiro, que duraram quase quinze anos.
Estando em Roma o prior Frei Pedro de S. Tomás, e porque a comunidade queria abrir ao culto a nova igreja, o superior da casa, Frei José de Santa Teresa, com licença do Provincial, inaugurou a Igreja num domingo, dia 24 de Abril de 1643. Foi este acontecimento celebrado com toda a solenidade e com a presença de todo o povo de Aveiro, que aplaudiu grandemente a nova igreja.
Foi convidado para presidir à inauguração um dos anteriores priores de Aveiro, Frei André da Encarnação, que foi na lista dos priores do Carmo, o quarto.
Alegrou-se sobremaneira a Sra. Dona Beatriz de Lara, ao ver o seu convento com tão formosa igreja, que lhe parecia ser, e segundo ela o dizia, um verdadeiro retrato do céu. Diz Rangel de Quadros: «o templo ficou muito bem construído e muito sólido e, talvez nesta parte, nenhum outro de Aveiro lhe levaria vantagem».

sábado, 19 de abril de 2008

Eu sou o caminho a verdade e a vida


Dizem alguns que não se sabe o que existe depois da morte, que nada alcançamos saber sobre o mais além. Dizem que não sabemos nem podemos saber, pois ninguém veio dizer o que quer que seja sobre o mais além.
Outros dizem que existem relatos de certas experiências de pessoas em coma que afirmam ter visto e sentido uma grande luz, um grande calor, uma grande paz e bem-estar.
Nós, cristãos, sabemos o que é que existe porque Jesus veio para nós da parte do Pai, a fim de nos revelar a vida eterna e indicar-nos o caminho para ela.
Nós não temos dúvidas.
Aliás, pela Ascensão Jesus sai da história, não para nos abandonar, mas para nos indicar o caminho a seguir para a vida eterna.
Ele precedeu-nos para nos preparar lá, na Casa do Pai, uma morada para nós.
O Apóstolo Tomé constituiu-se em porta-voz de todos os inquietos e disse ao Senhor que não conhecíamos o lugar do seu destino; o qual quer dizer, nem o destino nem o caminho para lá chegar...
Paciente, sempre paciente, Jesus fez então uma grande revelação que afasta todas as nossas dúvidas, temores e incógnitas: Ele mesmo é o caminho, a verdade e a vida!
Não precisamos de mais: Jesus é o caminho, porque é Deus.
Está assim claro que o nosso destino é o Pai.
E que a única via de acesso é Ele mesmo, o qual só é possível porque Jesus é a revelação do Pai. Ele é a verdade!
N’Ele se nos desvela o mistério de Deus, que é, simultaneamente, o mistério do homem, o mistério do seu amor por nós.
Jesus ao revelar-se a autêntica verdade do homem oferece-se-lhe como a vida, a vida eterna.
A pessoa de Jesus é pois a resposta a todas as nossas perguntas e inquietudes. Como Ele também nós vimos de Deus e para Deus vamos juntamente com Ele.
Conhecer intimimamente a pessoa de Jesus é conhecer a amorosa pessoa do Pai que muito nos ama. E a única maneira de conhecer o Pai é tratar intimamente com Ele através da pessoa de Jesus Cristo.
Mas novamente se manifesta a desorientação dos discípulos; agora através de Filipe. Filipe pede apenas que Jesus lhe mostre o Pai, porque o restante já nada interessa.
Jesus apanha uma surpresa:
depara-se com o facto de que a sua vida e ensinamentos pouco tinham ajudado os seus discípulos. Conhecia-os há tanto tempo e eles ainda não tinham reconhecido no Seu rosto o rosto do Pai. Não perceberam jamais que a pessoa de Jesus só se entende a partir de Deus, como revelação definitiva de Deus.
Os discípulos deveriam ter-se dado conta que o Pai está falando com eles através de Jesus.
Que na pessoa de Jesus estava o Pai actuando e realizando aquelas obras maravilhosas, espantosas e sobre-humanas.
Esta união indissociável entre Jesus e o Pai implica também a união entre Jesus e o crente. O crente fará as mesmas obras de Jesus, e até maiores, porque Jesus, depois de ir par ao Pai, actuará nele, em cada um de nós.
A grande obra de Jesus prolonga-se na Igreja, carismática e serviçal, que se põe ao serviço dos pobres. Nela todos somos membros activos, que contribuem para a sua construção.
Para ser credível a Igreja tem de continuar a realizar as mesmas obras de Jesus. Ele continua a actuar no hoje da história, e nós somos seus colaboradores na obra de salvação.
De maneira especial a Igreja constrói-se em torno à Eucaristia, porque através dela
tornamos presente a salvação de Deus.
Oferecer a Eucaristia ao mundo é colaborar com Jesus e contribuir para que o mundo seja mais justo, mais verdadeiro e mais fraterno, porque assim estamos permitindo que Jesus irrompa incansavelmente na história da Humanidade.

Chama n.º 669 ­- 20 Abril 2008

domingo, 13 de abril de 2008

O Domingo

O Domingo IV da Páscoa é na Igreja a jornada de oração pelas vocações.
No Evangelho deste Domingo escutamos o Bom Pastor, declarando: Eu sou a porta! Dispunhamo-nos a passar pela Porta e peçamos-Lhe mais sacerdotes para a sua Igreja.
Jesus disse: Eu sou o caminho; e disse também: Eu sou a porta! Esta última palavra escutámo-la neste Domingo, o Domingo do Bom Pastor, dedicado à oração pelas vocações.
A porta e o caminho são símbolos bíblicos que significam muito mais do que poderia parecer à primeira vista. São imagens que remetem para valores morais e para comportamentos determinados e exigentes. É por isso que Jesus afirma: Eu sou a porta!
O que Jesus quer dizer é: eu sou o modelo que deve ser imitado; eu sou o exemplo claro que deve ser seguido por quem quer entrar no meu rebanho. Quem se ocupar a copiar outro modelo, isto é, aquele que entrar por outra porta, não é dos meus, é um ladrão, um bandido ou um salteador. Ao expressar-se assim, Jesus deixou muito claramente dito quem são os verdadeiros pastores: aqueles que se identificam com Jesus, o nosso Bom Pastor. Os que são como Jesus são verdadeiros; os que não se lhe assemelham são falsos, são mercenários que apenas buscam o proveito próprio e jamais o bem do rebanho.
«Eu sou a porta.» As palavras de Jesus eram simples e claras, mas os seus ouvintes não as entendiam claramente. Por isso Jesus é paciente connosco e com eles, com aqueles que tardam em compreender que as ovelhas reconhecem bem a voz do seu pastor e rejeitam a dos bandidos.
É claro que as ovelhas ouvem e ouvem bem, tão bem que sabem distinguir a voz do engano e da mentira, da voz da verdade. E a esses não os seguem (embora falem palavras mais fáceis).
Pelo contrário, a Cristo, Bom Pastor, as ovelhas reconhecem-n’O pela voz e seguem-n’O. Ele caminha à frente do rebanho, como guia; e jamais se coloca atrás, porque não tem que as perseguir. Condu-las docemente, jamais com pedradas e com gritos ou com o auxílio de cães que lhes mordam as canelas. Vai à sua frente demarcando-lhes o caminhar com os seus passos e fazendo com que o caminho seja um caminho de salvação transitável e andadeiro.
Com razão se diz muitas vezes nos evangelhos que os discípulos e as multidões seguiam Jesus. É que em boa verdade, tinha sido Jesus quem os escolhera, dizendo-lhes: Vinde e vede!, ou segui-Me e vede!
Caminhar diante das ovelhas ou dos discípulos é uma maneira prática de lhes ensinar a maneira de caminhar. Vê-l’O a caminhar é interiorizar a melhor maneira de caminharmos. Percorrer os mesmos caminhos que Ele percorreu, é seguir pelos atalhos da abnegação e do serviço, do esforço e da entrega. É ir pelo caminho do amor e da lealdade, tantas vezes difícil de percorrer, tão difícil de seguir como se fora uma terrível montanha que escalar.
Entrar pela porta aberta que é Cristo é empapar‑se dos seus sentimentos e das suas atitudes, é, sem mais, viver os valores do Evangelho.
No coração de cada discípulo de Jesus deve habitar o mesmo amor, e o mesmo cuidado em amar como Ele amava; em acolher como Ele acolhia; em ser generoso como Ele era generoso; em ter a porta aberta como Ele sempre teve a porta aberta para os pecadores e os transviados!
Neste Domingo IV da Páscoa a Igreja de Jesus celebra a Jornada Mundial de Oração pelas Vocações. O lema deste ano é «As vocações ao serviço da Igreja-missão».
As vocações ao sacerdócio e à Vida Consagrada só nascem em terrenos que andem bem cuidados. Não nos deveríamos permitir viver descansadamente encerrados, antes, em nós, deveria acender-se o fogo ardente pela missão.
A vocação é um dom de Deus. É por isso que neste domingo, especialmente neste domingo, nós nos dirigimos ao Pai para Lhe pedir que surjam novas vocações que saibam compreender e enfrentar os novos desafios do nosso mundo. Havemos de confiar que Deus continuará chamando e enviando à sua Igreja novas formas de a servir e de a cuidar, isto é, novas formas de O seguir.
À Igreja pede-se também que seja casa de santidade, com uma porta grande e aberta para que todos possam entrar ao encontro do Bom Pastor!
Senhor Jesus, Bom Pastor da Igreja,
guia as nossas vidas, leva-nos pela mão.
Segue à nossa frente
que nós não nos afastaremos de Ti,
pois conhecemos bem a tua voz
e que só em Ti alcançaremos a vida
e vida em abundância.
Amen.



Chama nº 668 - 13 Abril 2008

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Oração proposta para a 45.ª Semana de Oração pelas Vocações

Senhor, Pai Santo, que amais o mundo que criastes
e não vos cansais de o contemplar e concluir que tudo é bom!
Ao ser humano, criado à vossa imagem e semelhança,
confiastes a missão de guardar a vossa obra
e quisestes chamar homens e mulheres
para, convosco, a conduzir à realização plena.

A fim de consumar este projecto,
enviastes ao mundo o vosso Filho Jesus Cristo
que, nos mostrou o Caminho para a felicidade a que aspiramos.
Chamando alguns de entre os seus discípulos,
partilhou com eles a sua Missão
e enviou-os a levar o Evangelho a toda a parte.

Este chamamento foi confirmado pelo Espírito Santo
e, ao longo destes últimos vinte séculos,
continuamente repetido e acolhido por tantos e tantas
que têm entregado a sua vida por esta preciosa causa.

Também agora, Pai Santo, Vos pedimos
que continueis a chamar, de entre nós,
aqueles que escolheis para partilhar a Missão de vosso Filho:
no ministério ordenado;
na vida consagrada activa;
na vida monástica e contemplativa;
na vida laical e matrimonial…
Pedimo-vos a graça da abertura do coração
para correspondermos sempre com generosidade e prontidão.

Confirmai com o vosso Santo Espírito
a acção e missão daqueles a quem chamastes e enviastes;
confortai-os nas dificuldades e desânimos.
Confiamos, também, esta causa à protecção de Maria,
a serva atenta e fiel à vossa vontade
e a S. Paulo, Apóstolo firme e zeloso do Evangelho.

A Vós, Pai Santo,
pelo vosso Filho Jesus Cristo,
no Espírito Santo,
sejam dadas honra e glória pelos séculos dos séculos.
Ámen.

DA VOCAÇÃO À MISSÃO

1.Desde o início do seu ministério apostólico, o Santo Padre Bento XVI, retomando uma já longa tradição, sublinhou e destacou a importância do ambiente e do sentido em que a vocação deve ser acolhida e em que esta Jornada vocacional deve ser vivida.
A teologia da vocação tem necessariamente de ser compreendida a luz da esperança, que brota do amor infinito de Deus que, pela Igreja – Mistério, Comunhão e Missão, nos chama a ser servidores da sua alegria, testemunhas da sua bondade e apóstolos do nosso tempo.
Missionária na sua essência, no seu conjunto e em cada um dos seus membros, a Igreja sabe que o imperativo de viver, testemunhar e anunciar o Evangelho é de todos os cristãos desde o Baptismo e sobretudo desde a Confirmação. Para compreendermos o dinamismo, a génese e o percurso de cada vocação devemos mergulhar neste oceano imenso de graça e de santidade, de mistério e de comunhão, de serviço e de missão onde se desenvolvem a vida e o testemunho cristão de cada um de nós.
O mistério de amor de Deus pela humanidade e as promessas divinas feitas ao povo de Israel concretizaram-se, cumpriram-se e “realizaram-se plenamente em Jesus Cristo” que escolheu discípulos para continuarem a sua missão.
A vocação tem sempre esta génese e evoca em permanência esta história: é dom de Deus e é olhar efectivo e afectivo de amor e de compaixão redentora para com o povo.
O sacerdote, o(a) consagrado(a) e o(a) missionário(a) são sinal desta aliança divina e são caminho profético de libertação e de salvação de pessoas e de povos que reencontram Deus e redescobrem o sentido da Vida e da História. Vivendo como discípulos de Jesus, o Mestre, e dóceis ao Espírito Santo eles sentem-se enviados em missão, em discretos e anónimos trajectos ou em percursos novos e corajosos junto de quem sofre e de quem trabalha pelas causas justas e urgentes de um mundo em busca de Deus, de dignidade e de esperança.
Nunca nos faltou no exemplo de Jesus e na vida da Igreja o lugar e o tempo dados à oração e à contemplação como formas imprescindíveis a preceder e a acompanhar a vocação a uma vida activa ou a fundar o carisma e a missão da própria vocação à vida contemplativa. Este é um dom inesgotável de graça e de bênção a que devemos incessantemente recorrer. Lembra-nos o Santo Padre que “somente num terreno espiritualmente bem cultivado brotam as vocações para o sacerdócio e para a vida consagrada”.
3. A oração, a alegria de ser chamado, a coragem de chamar, a disponibilidade confiante para trabalhar na pastoral juvenil e vocacional, a vida cristã das famílias, o ambiente formativo dos Seminários e das Congregações e Institutos Religiosos e o acolhimento e compromisso apostólico das comunidades e instituições cristãs são alguns dos inúmeros momentos, meios e mediações de uma verdadeira e criativa pedagogia da vocação.
O exemplo de S. Paulo e o “discurso missionário” de S. Mateus, que o Santo Padre refere na Mensagem, falam-nos de uma verdadeira cultura da vocação respaldada na simplicidade, na verdade, na confiança, na conversão e na coragem, características tão próprias dos jovens de hoje e de sempre.
São múltiplos e “comoventes os testemunhos que poderão inspirar muitos jovens a seguirem Cristo e a gastarem a sua vida pelos outros”, diz-nos Bento XVI. Sentimos todos igualmente que são muitos, generosos e criativos os testemunhos daqueles que se decidem hoje a trabalhar com alegria na pastoral vocacional nos seus âmbitos mais diversificados e nas suas expressões mais belas. Também isso nos diz que a hora que vivemos é uma hora de Deus que, em jeito de vigília, anuncia manhãs de esperança.
4. Pede-nos o Santo Padre que a sua Mensagem, dirigida a todas as comunidades eclesiais, possa suscitar “subsídios de oração e encorajar o empenho de todos os que trabalham com fé e generosidade ao serviço das vocações”.
Foi nesta Mensagem que se inspirou, com dedicação e alegria, o Secretariado Diocesano de Pastoral Juvenil e Vocacional de Aveiro, a pedido da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios, para elaborar este Guião a multiplicar pelas dioceses, comunidades e movimentos e grupos apostólicos de todo o País. Esta referência de justa gratidão é também um sinal da comunhão e da partilha que a Comissão Episcopal Vocações e Ministérios tem procurado incentivar e promover.
5. Que Nossa Senhora, a Estrela da Esperança, nos ensine a “implorar do Senhor o florescimento de novos apóstolos” e a trabalhar nesta missão da pastoral vocacional com alegria e com generosidade.

Mensagem de D. António Francisco dos Santos,
Bispo de Aveiro e Presidente da Comissão Episcopal Vocações e Ministério

domingo, 30 de março de 2008

O Capítulo reuniu e decidiu

O Décimo Capítulo Provincial reuniu-se de 25 a 28 de Março, no Centro de S. Teresa de Jesus, em Avessadas, com o intuito de avaliar o caminho percorrido e delinear, com a graça de Deus o que nos toca percorrer nos próximos três anos.
No fim da manhã do dia 25, na primeira sessão de trabalhos, foi eleito para novo mandato o Padre Frei Pedro L. Ferreira.
Seguidamente elegeram-se os Conselheiros provinciais, por esta ordem:
P. Fernando Reis;
P. Joaquim Teixeira;
P. Alpoim Portugal;
P. Armindo Vaz.
Na sequência dos trabalhos capitulares elegeu-se também a comunidade do Carmo de Aveiro, que será presidida pelo Frei Silvino Teixeira e que fica assim constituída:
Frei Silvino Teixeira Filipe;
Frei Manuel de Jesus Vaz de Brito.
Frei Rui Fernandes Rodrigues; O Padre Brito nasceu no dia 24 de Setembro de 1938, em Santa Maria Maior, Viana do Castelo. Foi Superior (Vigário) Provincial da Ordem, Superior da Comunidade do Porto, Mestre de Noviços e Mestre de Estudantes de Teologia, foi Pregador de retiros dum extremo ao outro de Portugal, e é reconhecido no país pela sua delicadeza de pai espiritual.
É sacerdote há quase 40 anos.

O medo não dá bons frutos!


Por escolha do Ressuscitado, o dia dos cristãos, aquele em que reúnem, é o primeiro da semana. É o Domingo, é o dia do Senhor! Esse é o dia em que nos encontramos e todos somos encontrados por Jesus. Segundo os relatos dos Evangelhos não é o Senhor que reúne os seus discípulos após a sua morte, mas que lhes aparece estando eles previamente reunidos.
Qual a força poderosa que levou os discípulos de Jesus a congregar-se após a Sua morte? O medo. Foi o medo e a memória das refeições que haviam comido com Ele. No dia da Ressurreição os discípulos estão de novo reunidos, embora alguns estejam já dispersos e afastados. Mas a verdade é que a reunião medrosa à volta duma mesa de refeição vai-se, pouco a pouco, convertendo em sinal da presença nova do Ressuscitado.
O medo é uma constante da vida humana. E também na vida dos que vivem da fé. Os indivíduos e as comunidades temem os perigos e mais os temem se eles lhes podem tirar a vida. Sempre assim foi. Ao longo dos Evangelhos o medo irrompe várias vezes em cena e atemoriza poderosamente a comunidade dos discípulos. Porém, medo algum se assemelha ao que a tragédia do martírio de Jesus provocou no pequeno rebanho dos seus seguidores. A cobardia que é uma mistela que inclui o medo como ingrediente levou Pedro negá-l’O; a ganância que é o medo de tudo perder levou Judas a trai-l’O; O medo puro e simples e a desorientação afugentaram os demais monte abaixo; apesar do medo José de Arimateia acede à presença do governador Pilatos para lhe pedir o corpo do seu Mestre a fim de o sepultar. Mas por medo não revela que é discípulo de Jesus.
A fúria da estupidez, do ódio e da morte torturaram o corpo de Jesus e rasgaram o seu coração. Morto o pastor, as autoridades assustaram sem dificuldade o rebanho dos discípulos, irromperam por ele adentro e todos se dispersaram ou encolheram cobardemente. À volta d’Ele, mesmo depois de imóvel e morto só ficou um menino e um piedoso punhado de mulheres. Alguns discípulos fugiram regressando ao passado, seja o de Emaús seja o da Galileia; outros encarceraram-se voluntariamente no Cenáculo, a casa do medo, trancada com trancas que só um, o Ressuscitado, saberá soltar.
Eis os frutos do medo: cobardia, desânimo, fuga, negação, regressão ao passado, frustração e auto-reclusão. E medo. E sempre o medo. Simplesmente o medo e a paralisia. Frutos bem amargos estes, bem amargos porque demasiado humanos. Só humanos e desencarnados de esperança. O Ressuscitado não merece aqueles frutos! O Redentor cujo corpo foi dado em oblação como fruto belo e agradável à sua Igreja, não merece frutos tão fracos e tão amargos.
Mas é o que lhe oferece a Primeira Igreja!
Eram bem justos os motivos para se sentirem atezanados pelo medo: a perseguição era tão real que rebentou como um tufão, embora o Mestre os tivesse prevenido de que o mundo os perseguiria, porque O perseguira a Ele. Perante as evidências tinham medo, e já nenhum coração recordava as Suas palavras na Última Ceia: «Não se perturbe nem se acobarde o vosso coração.»
O medo também leva à perda da memória... Talvez não toda, mas concerteza à vacilação sobre as palavras que melhor poderiam alentar. O tolhimento é tal (e não se diga só da Primeira Igreja, mas da de muitos momentos da história da Igreja) que tem de vir de fora do medo a força que o espante e rebente com os ferrolhos tão convicta e medrosamente fixados às portas, porque as portas do medo só podem ser estilhaçadas por Quem é vencedor da causa do medo!
E assim é que, Jesus, o Vencedor, se apresenta no meio dos discípulos, saudando-os na paz, a paz que eles já conheciam, pois lha confiara na Última Ceia. Eles sabem que a paz do Ressuscitado é a do Jesus de Quinta-feira Santa, porque Ele prometera que a sua não era uma paz como a do mundo. E juntamente com a paz mostrou-lhes as marcas dos cravos e o Lado aberto: e ali estava Quem estivera na cruz e sucumbira às garras da morte! Era Ele, não podia ser outro.
E encheram-se de alegria ao ver o Senhor!
E tudo mudou! Renasceu a ilusão e a esperança no coração daqueles que se tinham alimentado dos amargos frutos do medo. Se Jesus ressuscitara — e eles viam-n’O ressuscitado!— então, começara a Nova Humanidade, porque pela sua ressurreição nascemos para uma esperança viva, para uma herança que não se corrompe.
Acabara o tempo dos frutos amargos que alimentam homens fracos e produzem gerações raquíticas. Foi inaugurado o tempo da humanidade que não morre, ainda que sujeita às tribulações próprias dos caminhos da fé e às resistências dos que se escandalizam com a proposta do Evangelho: então não é que muitos, que, porque só se alimentam dos frutos do medo, não compreendem nem aceitam uma humanidade nova e livre, que vai a caminho da vida sem fim?
E como é difícil oferecer-lhes dos frutos da alegria da Ressurreição!