Jesus despediu-Se, «até já». Foi para o Pai. Mas ficou connosco, de diversas maneiras, que só Ele podia inventar: Na Eucaristia, na Palavra, no próximo (sobretudo nos mais pequeninos), na união fraterna (sobretudo quano os irmãos se põem de acordo para rezar. E ficou dentro de nós, que somos templos do Espírito de Deus. Não nos deixou órfãos!Fala-se por vezes e até com alguma insistência da orfandade (espiritual) do nosso tempo. Não é que não haja pais, mas que, frequentemente, eles estejam ausentes na vida dos filhos. Mas o que é pior, o que se vai notando mais é a ausência de pessoas que possam servir de referência para os demais. É verdade que quanto às normas, a cultura actual recusa a existência de um qualquer ponto de um referente comum.
A orfandade existe. E não é só de hoje. Os discípulos de Jesus sentiram a ausência de Jesus quando ele foi arrepanhado pela morte que O cravou na cruz. Tendo ficado ali, também Ele só e abandonado, eles sentiram-se abandonados, desvalidos e insignificantes, como menores de idade.
A ressurreição de Jesus suscitou uma enorme alegria entre os seus amigos. Ela supunha que, perante a condenação das autoridades judaicas o Pai reivindicava Jesus para si. Porém, depois da Ascensão os discípulos continuavam a sentir‑se sós, porque Jesus tinha ido para o Pai.
Surgiu, por isso, entre a comunidade dos discípulos, uma espera ávida do retorno do Ressuscitado, que viria congregá-los para os levar consigo para junto do Pai, onde há muitas moradas. Essa espera foi tornando‑se tão extensa e demorada, que foram descobrindo que não se encontravam sós, que Jesus tinha vindo para eles na pessoa do Espírito que lhes enviara desde o Pai.
Durante a presença histórica de Jesus na terra Ele-mesmo foi o defensor e consolador dos discípulos. Agora caberá ao Espírito Santo, o novo Consolador, assumir essa missão, isto partindo do princípio que os discípulos se encontrem em situações difíceis e conflitivas para as quais precisam de ajuda, de protecção e conselho.
É tudo isso que o Espírito faz. Ele é o Espírito da verdade que faz frente ao espírito do erro que impera sobre o mundo. A verdade faz caminho por si só. E é o Espírito quem irá reivindicando perante o mundo a pessoa de Jesus e o seu projecto, agora encarnado pelos seus discípulos.
A vinda de Jesus no seu Espírito é uma vinda suave e íntima que só acontece no mais profundo ser da pessoa. Não é um acontecimento ostensivo, visível para todos, embora sucedesse pela imposição das mãos dos Apóstolos.
Este é o mistério da inhabitação da Santíssima Trindade em nós, porque onde está o Espírito está também o Pai e o Filho. Esta presença é, portanto, a presença amorosa de Deus em nós, que, por sua vez, antecipa a nossa presença definitiva diante de Deus na sua glória.
A presença de Deus em nós é fruto do amor a Cristo. Quem ama a Cristo é amado por Deus. O Amado está presente no coração do amante. Ele é uma presença real, consoladora e transformadora de vida.
É assim que o crente se vai transformando interiormente, tornando-se na pessoa amada. Na nossa caminhada espiritual vamo‑nos transformando em Deus pela acção do amor de Deus.
Esta presença de Deus não é um sentimento vago, não é um pode ser ou não ser. É uma realidade que se traduz no concreto da vida, em acções, gestos e palavras. Não existe amor a Jesus sem se observar os seus mandamentos, e de forma particular o mandamento do amor fraterno.
A quem ama Jesus se revela. A quem ama Jesus desvela-se como amigo, através da acção do seu Espírito e assim o vai introduzindo no mistério de Deus.
Na celebração da Eucaristia, em qualquer ponto da terra, reunida a comunidade em nome de Jesus Cristo, o Espírito Santo transforma as nossas ofertas do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo.
Ao celebrarmos hoje a Eucaristia abramos com humildade os sentidos, o coração e a fé a fim de que em nós aconteça também a acção tranformadora do Espírito de Deus.


Jesus disse: Eu sou o caminho; e disse também: Eu sou a porta! Esta última palavra escutámo-la neste Domingo, o Domingo do Bom Pastor, dedicado à oração pelas vocações.



O Padre Brito nasceu no dia 24 de Setembro de 1938, em Santa Maria Maior, Viana do Castelo. Foi Superior (Vigário) Provincial da Ordem, Superior da Comunidade do Porto, Mestre de Noviços e Mestre de Estudantes de Teologia, foi Pregador de retiros dum extremo ao outro de Portugal, e é reconhecido no país pela sua delicadeza de pai espiritual.
