Como de costume juntou-se à sua volta uma multidão de pessoa, impedindo o acesso de quem quer que fosse. Entretanto chegam quatro homens trazendo num catre um paralítico, e como a multidão impedia o acesso do paralítico, resolvem entrar por trás, sobem ao telhado, levantam as telhas e fazem descer o enfermo para junto de Jesus.
Jesus louva a fé daqueles homens, e compadece-se do paralítico: "Filho, os teus pecados são-te perdoados". Era o pior mal que aquele pobrezinho padecia, a paralisia da alma. De facto um só pecado é mais daninho para o homem que todas as doenças juntas. Oxalá, recuperemos hoje o sentido do pecado tantas vezes esquecido.
As palavras de Jesus provocaram uma onda de protesto interior: "Quem é Ele para falar assim? É uma blasfémia, pois só Deus pode perdoar os pecados". E tinham razão para assim pensar, já que não acreditavam na divindade de Jesus, e é verdade que só Deus tem o supremo poder para perdoar os pecados. Mas Jesus tinha esse poder porque era Deus, e para o provar, cura miraculosamente o paralítico, corroborando assim as suas palavras com as obras.
O paralítico, que por si só e contando unicamente com as suas forças não podia aproximar-se de Jesus, representa a humanidade que está longe de Deus e é incapaz não só de providenciar a própria cura como inclusive de se aproximar d’Aquele que lhe a pode proporcionar. Por isso recorre a quatro amigos que com a sua generosidade, e habilidade, o levam até Jesus.
Os pecadores, representados pelo paralítico, não estão em condições de encontrarem a Cristo sozinhos, mas têm a necessidade de que outros, que já tenham experimentado a força paliativa da sua palavra, têm n’Ele uma fé indefectível. O paralítico nunca teria chegado até Jesus se quatro homens, cremos que familiares ou amigos, não o tivessem conduzido até Cristo.
Hoje necessitamos também de cristãos comprometidos e solidários, cimentados na amizade cristã, nos quais possamos manter e fortalecer a fé em Jesus salvador e médico dos corpos e das almas. Grupos formados por cristãos dispostos a compreender e a compreender-se, a ajudar e a ajudar-se sincera e gratuitamente. O bom discípulo de Cristo está sempre disponível para ajudar o próximo e a deixar-se ajudar pelos demais, mas devemos dirigir a nossa ajuda preferencialmente aos mais necessitados, dentro ou fora da nossa comunidade.
Hoje na nossa sociedade há muitos "paralíticos" que necessitam da nossa ajuda para se aproximarem de Deus; sozinhos não o podem fazer, talvez porque os empeçam os preconceitos familiares e sociais ou, quem sabe, alguma situação mais desagradável no seio da Igreja, ou pela influência mediática da imprensa ou da televisão.
Temos pela frente muito caminho a desbravar; temos que erradicar da nossa maneira de ser a maneira de pensar daqueles escribas que que se escandalizaram com as palavras de Jesus; temos que eliminar a desconfiança que nos leva a duvidar de tudo e de todos, temos de nos libertar dos nossos auto-conhecimentos que nos levam a rejeitar tudo o que nos cheira a novidade.
Hoje devemos reconhecer-nos paralíticos, e dispostos a aproximarmo-nos de Cristo, pelas nossas próprias forças ou com a ajuda de alguns verdadeiros amigos, com a humildde de quem também quer ser curado!
Vamos, dentro de dias, na próxima Quarta-feira, chamada das Cinzas, iniciar a Quaresma, que é um tempo de reflexão, conversão, de mudança de vida, um oportunidade única, ainda que todos os anos se repita, um momento para reconhermos que também estamos doentes, "paralíticos", e nos aproximarmos de Jesus (não é necessário ir a Cafarnaum, porque Ele, vem até nós), e podermos ouvir dos seus lábios as amáveis palavras: " Levanta-te, toma a tua enxerga e anda". Então também poderemos dizer: "Nunca vimos coisa assim".

